Seria como acordar em mais um dia comum não fosse o fato de
que, ao abrir meus olhos, me vi deitado fora da minha cama em um lugar
totalmente desconhecido e estranho para mim. Percebi que estava deitado no chão
sobre uma grama alta e fofa fazendo-me acreditar que eu ainda estava em meu
colchão. Como de costume, achei que fosse mais um daqueles sonhos em que você
parece estar dormindo e sonhando, e ao acordar, percebe que na verdade ainda sonha.
Logo, então, tentei voltar a dormir. Porém, fora em vão.
Levantei e logo me deparei com duas paredes, uma de cada
lado, que seguia num corredor com pouca luz. Eram paredes de cercas vivas que
traziam um aroma doce oriundo de flores que se seguiam por toda a extensão do
corredor.
Comecei a andar e percebi que mais adiante a luminosidade
diminuía e seria um tanto difícil reparar em detalhes que poderiam ser crucias.
Lembrei-me da lanterna em meu celular que eu sempre deixava na cabeceira da
minha cama. Voltei para onde eu estava e nada encontrei. “Isso só pode ser um sonho”, pensei.
Eu não tinha outra escolha a não ser percorrer aquele
corredor. Andei alguns metros, sempre a passos curtos e lentos, atento a
qualquer movimento ou coisa parecida. No final do corredor abriram-se mais dois
corredores dessa vez um pouco mais iluminados. Um para direita e outro para
esquerda. Fiquei preocupado e um pouco assustado.
“Não pode ser. Será
que...?”.
Segui pela direita e logo depois se abriram mais dois
corredores. Minha suspeita se concretizou. Eu estava numa espécie de labirinto.
Parei por um instante e respirei fundo a fim de tentar entender aquela
situação. Dei um passo atrás e tropecei em um objeto. Agachei-me para pegar o
objeto e parei bruscamente ao me lembrar de uma história em que objetos
encontrados em labirintos, ao serem tocados, levavam a pessoa para um lugar
ainda mais desconhecido.
“E se isso me levar
para um lugar pior que este?”.
E lá estava eu associando histórias com o momento que eu
estava passando.
“Que seja! Essas
histórias são apenas fantasias”, e peguei o objeto - que para mim era um
tanto peculiar. Era uma bengala, daquelas com uma curva numa ponta como se
fosse o cabo de um guarda-chuva.
Nada aconteceu ao tocar a bengala.
“E eu aqui pensando
besteiras”.
Examinei o objeto por alguns instantes e fiquei pensando o
porquê de uma bengala e não uma espada ou uma arma de fogo; talvez ali não
fossem necessárias tais armas. Logo reparei um pequeno botão próximo a curva da
bengala e sem titubear o apertei. Era uma lanterna. Aquilo me animou um pouco
mais, pelo menos agora eu enxergaria melhor os corredores.
Voltei à questão do labirinto e me lembrei de que se eu
colocasse a mão em uma parede e a seguisse sem retirar a mão dela eu
encontraria a saída - mesmo que fosse demorar muito. Então comecei a seguir a
parede com a bengala debaixo do braço e com a lanterna sempre apontada para
frente.
Caminhei por um bom tempo até me dar conta de que aquele
labirinto era realmente grande. Talvez uma visão de cima me ajudasse, porém no
momento eu não tinha asas e nem ao menos uma maneira de subir as paredes e
tentar uma olhada por cima de tudo.
Continuei a andar, sempre iluminando o caminho. O cheiro doce
das flores foi diminuindo à medida que os corredores começaram a esfriar. Senti
medo pela primeira vez.
“Só pode ser um sonho.
Só pode”, insisti.
Ao longe uma pequena luz apareceu – fraca. Flutuava levemente
para cima e para baixo. Havia algo naquela luz que me instigava a segui-la.
Parecia me chamar. Porém, se eu continuasse até a luz eu me desviaria da
técnica abordada por mim para tentar escapar dali. Decidi-me, então, ir até a
luz, afinal, se fosse um sonho, qual problema seria se no final de tudo me
acontecesse o pior? Eu estaria por fim acordado.
Fui chegando cada vez mais perto da luz, e ela crescia. A
certa distância da luz apareceu uma silhueta de um corpo aparentemente
magricelo.
“Quem é você?”,
perguntei assustado.
O corpo imóvel fez questão de parecer que me escutava, porém
não demonstrava interesse em me responder quem era.
Aproximei lentamente. Senti mais medo. E ao vê-la, chorei.
Era a morte.
Vestida não de preto, mas de vermelho - minha cor preferida.
“Só pode ser um sonho”.
Como eu desejava que fosse. E o era, talvez.
Senti-me cansado e arqueado. A bengala naquela altura se
fazia indispensável.
“Quem é você?”,
voltei a perguntar.
“Você já sabe quem eu
sou, dispenso apresentações”.
“Mas o que você faz
aqui?”.
“Vim te trazer uma
mensagem”.
“Mensagem? De quem?”.
“De alguém superior a
mim que resolveu te dar uma segunda chance”.
“Segunda chance de
quê?”.
“Viver!”.
Aquilo me veio como um estrondo de um trovão.
Como assim uma segunda chance de viver? Comecei a ficar
desesperado. Afinal, eu estava sonhando ou aquilo tudo era real? A loucura
beirava a minha sanidade. Eu queria que tudo aquilo terminasse logo.
“O que significa tudo
isso?”, perguntei.
“Este labirinto?”.
“Também!”.
“Este labirinto só está
aqui para você poder enxergar e entender o tempo curto que é a vida. Você andou
por ele e nem percebeu o tempo passar. Olhe para si, veja como está cansado e
ofegante. Tua idade já não é mais a mesma”.
A morte se aproximou de mim lentamente, deu uma ou duas
voltas ao meu redor e tocou-me.
Senti um frio inexplicável congelando meus ossos.
“Isto era o que ele
queria te mostrar. Olhe para trás de ti”, e apontou na direção oposta a
mim.
Virei-me com certa dificuldade, ainda arqueado sobre a
bengala. E para minha surpresa eu não estava mais em um labirinto. O ambiente,
o clima, a tensão, tudo mudou bruscamente. E eu me via numa cama de um
hospital.
Estavam lá meus pais e meus irmãos. Um médico também se fazia
presente e parecia que lhes dava uma notícia horrível. E naquele momento eu
desejei do fundo do meu coração não ter compreendido a leitura labial que fiz
daquele médico.
Eu estava quase morto.
Memórias até então desvanecidas, vieram avassaladoras.
Lembrei-me da minha vida. De como era rotineira, morna, sem sal, sem gosto, de
reclamações e conformidade. Vivendo todos os dias iguais sem uma perspectiva
maior ou até mesmo de fé. Até que me veio a lembrança de um acidente. Num
piscar de olhos e tudo se tornou de uma forte luz dos faróis contra o
para-brisa do meu carro para uma escuridão angustiante.
Procurei a morte e ela não estava mais ali. Entrei em pânico.
Chorei amargamente por algum tempo até me deparar com um pedaço de papel no
chão.
Nele havia uma frase: A reclamação traz destruição à alma, e
o conformismo a morte. Empenhe-se, pois, na transformação e renovação da tua
vida. Vá. Até breve. Teu criador.
Fechei os olhos e uma forte luz invadiu meus sentidos e
pensamentos. Aquilo foi se tornando intenso e comecei a deixar de ofegar,
respirando mais suavemente. Do ar que entrou pelas minhas narinas, senti meu
pulmão se encher. Após isso, meu coração a bater. Meu sangue correr pelas
minhas veias. E por fim aquele cheiro de hospital e som de choros.
Fiquei ali por uns instantes a fim de me situar com aquilo
tudo e agradecer, ainda de olhos fechados, pela segunda chance de viver.
Então senti meu corpo inteiro doer devido ao acidente. Era um
sinal.
Eu estava vivo novamente.
Abri meus olhos e acordei.
Seria como acordar em mais um dia comum não fosse o
fato de que eu havia nascido outra vez.
Tiago L. J. Lourenço
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